Eu era uma menina de 19 anos quando vi pela primeira vez na TV algo que marcou a minha vida. Três tenores, na época não entendia muito bem o que era ser um tenor, cantavam de forma tão mágica e emocionante que não contive as lágrimas, a música era "Nessun Dorma", foi nesse momento que conheci ópera. Uma jovem pobre, estudante de escola pública, sonhando acordada por ter obtido a aprovação numa das Universidades mais concorridas do país, pela primeira vez sentiu algo muito forte vindo de algo tão sensível, era época em que o rock nacional deixava adeptos fiéis, como o sou até hoje. Mas aquela música, aquela melodia era especial e a jovem pobre por um momento sentiu-se entre a realeza, num grande teatro. A riqueza que adquiri não mudou minhas roupas, meus recursos, minha personalidade, mas mudou minha forma de encarar o mundo e reconhecer a riqueza que diferentes culturas poderiam me oferecer. A parti daí, muitos outros estilos musicais se abririam para mim. Conheci o jazz, blues, etc. A bossa nova e os grandes festivais da Record se revelaram como se Geraldo Vandre fosse meu novo colega de faculdade. Tão atual em 1988 como é hoje após a morte do inegável melhor tenor de todos os tempos, Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo nos concertos "Os três tenores", popularizou a ópera. Luciano, assim como eu, não nasceu com os recursos que necessitava para tamanho sucesso. Ele de forma inovadora acreditou que assim como ele, filhos de outros padeiros poderiam se encantar com a ópera. E ele de fato não estava errado. No dia 6 de setembro, Luciano morreu, mas não sua mensagem, sua música, seu talento, estes são eternos, atemporais, sempre atuais. Sempre encantarão crianças, jovens, adultos que tiveram a mágica oportunidade de ouvir a sua voz. Hoje sou professora num país de "Chans", "Calipsos" e "Cachorras", na busca de revelar aos meus alunos a beleza que Luciano pôde me proporcionar e com isso as portas para conhecer outra diferentes belezas. Infelizmente nem todos conseguem perceber algo belo. Beleza hoje é efêmera, esta que me refiro é a única capaz de embelezar rostos sem injeções e cirurgias, de alegrar o coração e a alma e de sentir-se acompanhado mesmo estando sozinho. A beleza que me refiro continuará viva em memória de Pavarotti.
Luciano Pavarotti
(1935 - 2007)

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